Capoeira Inclusiva

É comum ouvirmos falar que a Capoeira é uma manifestação inclusiva e democrática. Mas, será que essa afirmação é uma verdade? A Capoeira é de fato inclusiva, ou pode ao contrário promover exclusão?

Vamos pensar especificamente no contexto de uma Roda de Capoeira, seja de Capoeira Angola ou de Regional e fazer uma análise puramente didática para tentar entender um pouco melhor esta questão. Em ambas os estilos existe a bateria de instrumentos. No caso da Angola, a bateria é formada por três berimbaus, um atabaque, dois pandeiros, um reco-reco e um agogô. Na Regional, a bateria é composta de um berimbau e dois pandeiros.

Atrelado à bateria temos também a figura do cantador, que é quem “puxa” as ladainhas, as quadras e os corridos.

Além da bateria, na roda de Capoeira também estão presentes a assistência, que é composta pelas pessoas que compõem a roda, seja sentados (Angola) ou de pé (Regional).

Finalmente, dois jogadores ocuparão o centro da Roda desenvolvendo o jogo.

Comecemos então pela assistência da Roda. É este um espaço democrático, do qual todos têm direito igual de participação? No meu entender a resposta é sim. Todas os que fazem parte da Roda têm direitos iguais neste aspecto da Roda. Não há distinção entre entre os alunos em função do seu nível de habilidade. Mesmo por que, para participar da assistência o aluno precisa apenas ficar sentado e responder o coro (Angola) ou ficar de pé bater palmas e responder o coro (Regional). O que são habilidades relativamente simples. Ainda que, para algumas pessoas (especialmente alunos iniciantes) bater palmas e responder o coro dentro de um ritmo predeterminado possa ser uma habilidade dificil.

Passemos a gora a analisar a bateria de instrumentos. Será que a Bateria da Roda de Capoeira, seja Angola ou Regional é um espeço democrético, onde todos participam em iguais condições? Neste caso o panorama começa a se modificar e a resposta é não. Para participar da Bateria alguns requisitos são necessários. Em primeiro lugar, o aluno precisa minimamente saber manusear e tocar o instrumento dentro do ritmo proposto e saber tocar de acordo com os fundamentos, ou seja, dentro das “regras” estabelecidas.

A experiência nos mostra que os instrumentos de Capoeira apresentam diferentes graus de dificuldade para sua aprendizagem. Em geral, podemos afirmar que o berimbau é o instrumento com maior grau de dificuldade de aprendizagem, quando comparado com os demais (pandeiro, atabaque, reco-reco e agogô).

É preciso dizer que a analise que faço aqui é fruto da minha vivência, experiência e observação dentro do mundo da Capoeira. É fato que não é possível falarmos na Capoeira de uma maneira geral, já que existem especificidades em cada grupo de Capoeira. Além disso, em um mesmo grupo, que possua diferentes núcleos é possível observarmos variabilidade em relação ao modo de fazer a Capoeira.

Para ser inclusiva a Capoeira precisa considerar a todos como iguais, independente da cor da pele, da condição social e econômica, da origem, da crença religiosa, do nível de escolaridade, da opção sexual, do nível de conhecimento e experiência relacionados à Capoeira.

“Agregar é a palavra mágica que está inscrita na alma do povo negro por intermédio das vivências comunitárias. Assim, as religiões de matrizes africanas fazem parte do dia-a-dia do povo. A gente vive mesmo ritualisticamente. A gente vive mitologicamente. Esse jeito de estar no mundo é um jeito malungo de criar laços, de se identificar com o outro. Precisamos nos identificar com o outro para poder construir alguma coisa. Nós continuamos sendo quilombolas. E esse é o segredo do povo negro, do povo da periferia. É o segredo do povo que, paradoxalmente ao nada ter, é o que mais tem para dar. O que mais troca e o que mais divide.”

Vanda Machado (http://www.irohin.org.br/onl/new.php?sec=news&id=3574) Consultado em 17/01/10

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